Imagens de Salvador

julho 17, 2009

Kitesurfing

Praia do Buraquinho, ponto do kitesurfing soteropolitano, ontem.

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Jornalismo e a PM carioca

julho 16, 2009

Ainda na esteira do papo de ‘jornalismo independente’, acabei de ler um texto muito bom, via email, sobre uma “visita” de PMs a um morro carioca, daquelas bastante respeitosas aos Direitos Humanos, e da visão de jornalistas do O Globo sobre o fato.  Abaixo, um ligeiro trecho:

Ao receber minha mãe de volta para o tradicional almoço de domingo, qual não foi a minha surpresa quando ela veio me contar que a atividade, por pouco, não havia sido cancelada. O motivo? A comunidade estava em pânico e com medo de sair de casa após a morte de cinco moradores da comunidade em uma incursão da PM na noite anterior.

A história contada pelos moradores que se arriscaram a participar (descrita por TODOS eles, sem exceção) e confirmada pelos responsáveis pela escola era a seguinte: o tráfico atrasara o famoso arrego dos policiais. Em represália, os militares proibiram a realização de uma tradicional festa junina (veja bem, NADA de baile funk) que reúne os que vivem no local. Sim, é bem verdade que ela só é realizada com o apoio financeiro dos traficantes, mas se assim não fosse acho bastante difícil que existisse verba disponível para bancar a confraternização.

Para ler o texto completo, cliquem aqui. A autoria é de Luã Marinatto, estudante de jornalismo da UFF. Recomendo.

Um exemplo de jornalismo independente

julho 16, 2009

Quando estamos na faculdade, no auge de nossos ideais, gastamos horas e horas pensando e projetando um jornalismo fiscalizador e independente. Fazemos jornais comunitários, programas de webrádio, blogs, todos com um caráter de denúncia das injustiças sociais e do poder opressor.

Mas aí nos formamos, viramos reféns do mercado de trabalho, e vemos que o que prevalece mesmo são os interesses das empresas jornalísticas. Fiscalizar, sim, até o limiar das conveniências. É a chamada “liberdade de empresa”, ao invés da hipócrita, porém gritada  a 4 cantos “liberdade de imprensa”. Mas há exceções.

Uma delas é Lúcio Flávio Pinto, que redige desde 1987 o seu Jornal Pessoal. Trata-se de uma publicação quinzenal, feita de forma totalmente independente, livre de anúncios, e vendida nas bancas de Belém do Pará. É o que chamo de fazer jornalismo na raça.

O preço da independência costuma ser alto. No caso de Lúcio, foi de 30 mil reais. Esse é o valor que o jornalista está obrigado a desembolsar, por conta de uma condenação ordenada por um juiz de uma vara belenense. Lúcio mexeu com poderosos de uma elite local, que comanda a imprensa paraense. A condenação foi sua conseqüência.

Para ler a história completa, leiam este post do Idelber Avelar, que detalha tim-tim por tim-tim o caso. O mesmo Idelber também deu início a uma campanha para doações para ajudar Lúcio. Ele mesmo e até o Alex Castro já ajudaram. Pretendo fazer o mesmo o mais breve.

Fica aqui a mais sincera solidariedade à Lúcio Flávio Pinto, que, antes de mais nada, é uma solidariedade ao jornalismo independente. E recomendo aos blogueiros que apoiam a causa, que passem essa notícia adiante.

A minha Crise dos 20

julho 14, 2009

Crise dos 20

Uma vez li em algum orkut alheio uma menção a uma suposta crise dos 20. Não explicava do que se tratava, nem detalhava seus sintomas e causas, apenas dizia algo como “a crise dos 20 chegou com um certo atraso em minha vida”. Fora a primeira e única vez que me deparava com a expressão.

Acabei gravando aquelas palavras na minha cabeça. Vira e mexe, me pego pensando nelas, talvez por querer encontrar uma lista de características que pudesse se constituir num diagnóstico de uma Crise dos 20 anos. Não sei se a conclusão a qual cheguei é fidedigna com a realidade, mas vale como um esboço de teoria, baseado em minha própria experiência mundana.

Acho que o que inaugura e dá corpo à tal Crise dos 20, se é que ela realmente existe, é o nosso primeiro encontro com a sensação de estar ficando velho. Sensação de que nossa vida já reúne um número sintomático de experiências, de que nossas lembranças já têm uma amplitude considerável, a ponto de lembrarmos com grande precisão fatos de mais de dezena de anos atrás. É ver pessoas e entes queridos morrerem com mais constância. É começar a nos habituar com a transitoriedade.

Na infância e adolescência, estamos distraídos em demasia com coisas mais importantes para pensarmos no tempo que passa ao lado. Conforme os hormônios vão se estabilizando, entretanto, vamos ficando mais serenos. Mais suscetíveis a reflexões, menos imunes a certas angústias. É aí que começamos a tomar consciência de que nossa existência é irremediavelmente perecível.

Até certo tempo atrás, eu tinha uma dificuldade tremenda em lidar com ícones do meu passado. Passar em frente à escola do meu primário, por exemplo, me impregnava de nostalgia. Debater com minha mãe a possibilidade de vender a casa onde vivi quando criança, mesmo não morando mais nela há anos, me deixava contrariado. Acho que vivi ali o ápice da minha crise dos 20.

Hoje, se não estiver enganando a mim mesmo, já superei estes dois complexos. Mas novas inquietações não faltam. Quem diria que chegaria a fase de dizer “na época da minha faculdade…”. Isso, até outro dia, era assunto só do meu pai, poxa vida. E por aí vai.

Como já disse anteriormente, acabamos por nos acostumar com tanta transitoriedade na vida. É quando entramos na fase descendente da parábola da crise dos 20. Não sei se é nesta que estou, apesar de já achar que o ápice já foi, mas só desejo que daqui a 7 anos, eu não encontre uma crise dos 30.

Pichou, caiu.

julho 14, 2009
Muro do CT do Sao Paulo pichao

Quem é o burro?

Muro de CT amanhecer pichado é um prelúdio tão certeiro quanto o vento que antecede a chuva: cedo ou tarde, em 100% dos casos, o que transcorre é a demissão do técnico.

Nos últimos tempos, acostumei-me a ver semelhante arte nos muros de outros. Em especial, no do Corinthians, clube cujos técnicos tivemos o desprazer de desferir o tiro fatal da demissão um bom par de vezes. Mas depois de quase 3 anos e meio com o barco tocado nas mãos de um mesmo capitão, gozando de uma rara tranqüilidade, só importunada uma ou outra vez por algum mau resultado, eis que chegou a vez dos muros do CT tricolor amanhecer com dizeres que não lhe pertenciam. Não tardou muito e Muricy era mandado embora.

Hoje, li de manhã que a última vítima dos artistas do spray foi o muro do CT Rei Pelé, em Santos. A maldição já estava liberta, era só uma questão de tempo, pensei. Só não imaginava que seria tão rápido: à tarde, Vagner Mancini já estava desempregado.

Qual o próximo muro a ser pichado? Tenho uma vaga sensação de que será o do CT do Inter. Do Fluminense, nem precisou, até onde saiba. E os corinthianos, que até outro dia viviam com funcionários pintando muro, hoje se esbaldam na mais profunda calmaria, aquela que procede a tempestade.

Até a eliminação da Libertadores 2010.

Salve a dor!

julho 10, 2009

Nas duas vezes que fui pra Salvador, costumo dizer que as coisas que mais me marcaram foram suas belas praias das quais todo mundo já sabe, e a pobreza obscena, que também não é novidade pra ninguém. Sol, areia fofa, mar aprazível, Itapuã, Stella Maris, Flamengo costumam dividir espaço ombro a ombro com pelotões de crianças pedintes e mendigos desamparados.

A região metropolitana de Salvador sustenta um índice de desemprego de cerca de 19,8% de sua população economicamente ativa (PEA), num país cuja média é de 12,7%. Trata-se de uma das maiores taxas brasileiras, se não a maior. O reflexo é perfeitamente visível na paisagem urbana. E muitas vezes também sentido na carteira batida, no celular subtraído, ou, pior, na pele. A violência, tal qual outras metrópoles, é endêmica.

Rumo esta noite para a terra de Dorival Caymi, Jorge Amado e Obina, a visitar meu velho, acompanhado de meu irmão e avó paterna. Se as circunstâncias contribuírem, e meu pai estiver a fim, quero conhecer também a Chapada Diamantina e suas vistosas serras. E quem sabe também dar um pulo em Aracaju. Fotos não faltarão, podem aguardar.

O que está certo mesmo, é a aquisição de mais um instrumento musical , que vai se juntar ao contra-baixo, à flauta boliviana e ao pandeiro, hoje meros enfeites do quarto de um aspirante frustrado à multiinstrumentista.

berimbau

Foto de Bruno Moreira

O Mulato

julho 10, 2009

Dizem que o que sai do cruzamento de dois indivíduos, sendo um negro e o outro branco, é o famigerado mulato. Tem uma cor escurinha, nem tão preta, nem tão alva, mas o meio termo. É um “seis e meia da tarde”, como falam alguns por aí.

Eu sou um desses seis e meia. Não descendo exatamente de um casal interracial, mas sou resultado de um embolado de genes, vindos de vários cantos do mundo. Todos os meus primos, dos 16 no total, e até meu irmão, podem ser considerados brancos. Pra usar o vocabulário do IBGE, costumo me declarar “pardo”. Ou simplesmente mulato.

Numa sociedade tão racista como a brasileira, não me lembro de haver sofrido alguma discriminação mais gritante por conta de minha cor. Salva a época da infância, quando estudava em escola particular, onde, obviamente, não era nenhum reduto de afrodescendentes, longe disso. Assim, freqüentemente, um ou outro branquinho costumava me chacotear de escurinho. É claro que eu odiava. Mas todos crescemos, e logo as chacotas mudaram de mira.

Credito o fato de ter passado 23 anos da minha vida com pouca ou nenhuma discriminação de cor de pele, mesmo sendo um mulato, à classe social à qual pertenço e ao momento histórico o qual vivencio. Já o mulato Raimundo não teve a mesma sorte. Apesar de bom burguês, viveu no Brasil em pleno século XIX. O país ainda se servia dos escravos negros. Ser abertamente racista não era motivo de pudores ainda.

Raimundo José da Silva é o personagem central de “O Mulato”, romance de Aluísio de Azevedo, datado de 1881, e que terminei de ler ontem à noite. A história transcorre na década de 1870, em São Luís do Maranhão. Permeada por comerciantes portugueses, negros escravizados e beatas mal amadas, a cidade é palco de um romance proibido entre Raimundo e Ana Rosa, sua prima de pele branca. A cor como obstáculo ao final feliz de ambos é o ponto central da trama.

O grande mérito de Aluísio de Azevedo é o caráter denuncista que seu livro traz consigo. Me pergunto se “O Mulato”não deve ter colocado algumas minhocas na cabeça dos puristas de raça mais inveterados da época. Falo isso por conta do alto cuidado no desenho do enredo, a ponto de desmistificar diversos preceitos raciais, ao exaltar tanto as virtudes inquestionáveis de Raimundo, quanto os vícios e malvadezas dos personagens que o perseguiam.

Desconheço a história da luta antirracismo no Brasil, certamente ela já vem desde antes de 1870, mas é indiscutível que o livro de Aluísio de Azevedo é de contribuição ímpar para a causa. Causa esta que segue viva como nunca hoje, apesar do famoso mito que paira sobre a cabeça de alguns de que vivemos no país da democracia racial.

*****

Ps1: para quem quiser entender um pouco mais sobre racismo no Brasil, favor ler esses posts deste blog. Admito que tais textos me municiaram de vários argumentos para o contra-discurso de democracia racial.

A Revolução será televisionada

julho 9, 2009

Manifestantes Hondurenhos

Foi muito, muito louco acompanhar ao vivo e a cores a tentativa de regresso do presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, ao seu país no último Domingo. E graças à Telesur (aquela do Chávez), que fez uma cobertura jornalística simplesmente espetacular. Havia todos os ingredientes de um filme de ação: tiros, avião, exército, conspiração.  Só faltou o mocinho derrotar o bandido no final.

Para dar uma situada aos mais desatentos: no Domingo de 29 de junho, o exército hondurenho entrou na casa de Zelaya sem bater na porta, o agarrou de pijama, colocou-o num avião, e o despachou para Costa Rica. Logo assumiu um pretenso governo interino, capitaneado por um cabra de nome Micheletti.  Um clássico golpe de estado, forjado em cima de algumas desculpas de fachada, as quais não me darei o trabalho de explicá-las agora (deem uma pesquisada se se interessarem).

Pois bem, durante a semana toda, Zelaya avisou aos 4 cantos que iria voltar à Honduras porque ainda se considerava  o “presidente legal do país”. A reação da comunidade internacional foi adequada, ninguém reconheceu o governo golpista, pulularam condenações dos países americanos, e até se ensaiou uma escolta de presidentes para Zelaya em sua volta; rezou a lenda nesses dias que Rafael Correa e Cristina Kirchner também iriam. “Bom, derrubar o avião do Zelaya é que o exército agora não vai fazer”, me entusiasmei. O circo parecia que ia de fato pegar fogo.

A data inicial da volta era quinta-feira, dia 2 de Julho! Qual um espectador ansioso, comecei a contar os dias para o acontecimento. Mas aí começou a enrolação diplomática, uma reuniãozinha ali na Nicarágua, outra ali em Washington, e a viagem parecia que não ia sair. Depois, quinta passou, nada de volta, mas Zelaya seguia categórico na sua intenção. Mais um dia se passou, era sábado, e veio a notícia de que Correa e Kirchner não iriam mais. “Nunca prometa algo que não possa cumprir”, ensinei ao meu irmão, em uma conversa sobre a promessa do presidente deposto.

Porém  no sábado à noite a manchete da vez era “Zelaya diz que volta neste domingo de qualquer jeito”. Esmoreceu um pouco minhas dúvidas.

No tão aguardado dia, grudei no Twitter. Via Idelber Avelar, passei a seguir uns hondurenhos sintonizados e também consegui o link pra transmissão da Telesur. A emissora já trazia as imagens de milhares de pessoas cercando o aeroporto Tocontín, em Tegucigalpa, capital do país. Como não poderia deixar de ser, lá estava o exército pronto para reprimir. Fato que não tardou muito:  logo, começaram as bombas de gás lacrimogênio e tiros de fuzis na multidão pró-Zelaya. Um saldo de ao menos dois mortos entre os manifestantes.

Enquanto isso, a Telesur transmitia vídeos de celulares feitos por anônimos que estavam ali no olho do furacão. Também tinham um link ao vivo com uma repórter localizada bem aos fundos do aeroporto. Posição perfeita. E aí que Zelaya entrou ao vivo, diretamente do avião, confirmando que em pouco tempo chegaria à Tegucigalpa. E o circo já pegava fogo. Haja coração!

A camêra do link ao vivo a todo momento focava o horizonte, em busca de algum sinal do avião do presiente. Por diversas vezes, nada no céu, com exceção de um helicóptero do exército. Eis que então surge a aeronave com Zelaya. Uuuuonnn! No chão, caminhões do exército obstavam a pista. O piloto, venezuelano, entra ao vivo na Telesur:

“Estou pedindo permissão para pousar, mas não concedem”. Zelaya também vai ao ar, diz que deu ordens para liberar a pista, mas recusadas. Depois de duas tentativas, Zelaya desiste. Ruma para a Nicarágua.

Ainda sobrou tempo para Chávez também ir ao ar na Telesur, descer a lenha nos golpistas. Pelo Twitter, soube que a mídia hondurenha boicotou completamente os acontecimentos. Primeiro, veiculando filmes e desenhos. Depois, em cadeia nacional, passavam mensagens já transmitidas dos golpistas.

Quanto a mim, me encontrava totalmente eufórico com toda aquela sequências de acontecimentos. E deslumbrado, pensando acerca de quão rápido viajam as informações nos dias de hoje, a ponto de eu, sentado em meu quarto, Rio Claro, interior paulista, estar me sentindo como se estivesse em Tegucigalpa, vibrando em alguns momentos, me lamentando em vários outros.

Esse caso de Honduras, juntamente com os protestos em Mianmar e no Irã, países de cunho bastante autoritário, célebres censores da livre circulação de notícias quando estas não lhe conveem, serviu para consagrar ainda mais as camêras de celulares, o Twitter e You Tube como instrumentos jornalísticos únicos.  Santa internet.

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ps1: uma menção honrosa ao post inaugural deste blog. Que seja eterno enquanto dure.