Archive for the ‘Raça’ Category

Somos, sim, racistas

agosto 26, 2009

Tem gente que acha que fazer piada de negro não é manifestação racista. Que ser chamado de macaco é mil vezes melhor que ser chamado de girafa porque o QI do primeiro é maior que o segundo. Tem gente que acha  que a camisa “100% negro” tem exatamente a mesma conotação de uma “100% branco”. Que cotas pra negros em universidades públicas é uma medida puramente racista.

Tem gente que acha que não tem racismo no Brasil.

Há cerca de duas semanas, fui a uma manifestação convocada pelo movimento negro de Rio Claro.  O sábado ainda era manhã. No local combinado, a praça central da cidade, estavam meu amigo anarquista mais quatro ou cinco pessoas que apareceram pela convocatória, além da presidente do conselho municipal da comunidade negra e de um jornalista do maior diário local, que se dizia imparcial, citava trechos da bíblia, e torcia para que a polícia descesse o cacete em invasões  do MST, cujos integrantes, de cada 20, 18 eram vagabundos.

A manifestação foi um fiasco e não aconteceu. Fora marcada para protestar contra um ato de racismo que ganhou os jornais e até uma moção de repúdio da câmara de vereadores. A história é mais ou menos aquela: um policial chegou, revistou e humilhou/agrediu o negro. O negro não deixou quieto, seu caso virou manchete, e até marcaram manifestação, que, como já disse, não aconteceu. Em parte, pelo amadorismo na realização de atos de protesto dos idealizadores. Não os culpo.

No Carrefour de Osasco noutro dia, o negro cometeu o crime de ter um Eco Sport. Foi abordado, confinado e espancado. Mas diferentemente de Rio Claro, rolou uma manifestação. Se liguem nas fotos:

onde estao os negros bandeirao

Eu poderia escrever linhas a fio sobre racismo no Brasil. Poderia falar sobre o quanto ganham mulheres negras brasileiras ou qual a chance de um negro ser assassinado no país. Mas desencana. Escrevo mais pra me expressar mesmo. Tem gente que escreve bem melhor do que eu, e  com muito mais propriedade do tema.

Como, por exemplo, o Alex Castro.  Se quiserem se graduar em racismo no Brasil, podem começar por esta coletânea de textos dele.  Recomendo um bastante curioso, que fala sobre todas as capas da Playboy da história em território nacional. Se o brasileiro não é racista e cerca de metade da população é composta por negros e pardos, é mais do que certo que encontremos essa mesma proporção entre as mulheres que frenteiam a revista símbolo do padrão estético popular, ok?

Pra finalizar, reproduzo Tulio Vianna, com o qual concordo em gênero e vírgula:

Se ser moderninho, divertido e criativo é zombar de minorias políticas, eu prefiro ser o babaca sem senso de humor que denuncia estes covardes que se escudam no riso para manifestar seus preconceitos.

A genialidade do humor está em zombar dos que oprimem e mostrar o quão ridículo são seus preconceitos. Riamos da classe média e de seus valores pequenos burgueses, dos homófobos posando de machões, dos machistas tomando inevitáveis foras de mulheres inteligentes e, principalmente, da indignação de muitos brancos em ver um negro na presidência do país mais rico do mundo.

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ps1: um dia, ainda leio esse livro. Pra poder rir (de raiva), é claro.

ps2: título copiado dessa matéria da Carta Capital.

O Mulato

julho 10, 2009

Dizem que o que sai do cruzamento de dois indivíduos, sendo um negro e o outro branco, é o famigerado mulato. Tem uma cor escurinha, nem tão preta, nem tão alva, mas o meio termo. É um “seis e meia da tarde”, como falam alguns por aí.

Eu sou um desses seis e meia. Não descendo exatamente de um casal interracial, mas sou resultado de um embolado de genes, vindos de vários cantos do mundo. Todos os meus primos, dos 16 no total, e até meu irmão, podem ser considerados brancos. Pra usar o vocabulário do IBGE, costumo me declarar “pardo”. Ou simplesmente mulato.

Numa sociedade tão racista como a brasileira, não me lembro de haver sofrido alguma discriminação mais gritante por conta de minha cor. Salva a época da infância, quando estudava em escola particular, onde, obviamente, não era nenhum reduto de afrodescendentes, longe disso. Assim, freqüentemente, um ou outro branquinho costumava me chacotear de escurinho. É claro que eu odiava. Mas todos crescemos, e logo as chacotas mudaram de mira.

Credito o fato de ter passado 23 anos da minha vida com pouca ou nenhuma discriminação de cor de pele, mesmo sendo um mulato, à classe social à qual pertenço e ao momento histórico o qual vivencio. Já o mulato Raimundo não teve a mesma sorte. Apesar de bom burguês, viveu no Brasil em pleno século XIX. O país ainda se servia dos escravos negros. Ser abertamente racista não era motivo de pudores ainda.

Raimundo José da Silva é o personagem central de “O Mulato”, romance de Aluísio de Azevedo, datado de 1881, e que terminei de ler ontem à noite. A história transcorre na década de 1870, em São Luís do Maranhão. Permeada por comerciantes portugueses, negros escravizados e beatas mal amadas, a cidade é palco de um romance proibido entre Raimundo e Ana Rosa, sua prima de pele branca. A cor como obstáculo ao final feliz de ambos é o ponto central da trama.

O grande mérito de Aluísio de Azevedo é o caráter denuncista que seu livro traz consigo. Me pergunto se “O Mulato”não deve ter colocado algumas minhocas na cabeça dos puristas de raça mais inveterados da época. Falo isso por conta do alto cuidado no desenho do enredo, a ponto de desmistificar diversos preceitos raciais, ao exaltar tanto as virtudes inquestionáveis de Raimundo, quanto os vícios e malvadezas dos personagens que o perseguiam.

Desconheço a história da luta antirracismo no Brasil, certamente ela já vem desde antes de 1870, mas é indiscutível que o livro de Aluísio de Azevedo é de contribuição ímpar para a causa. Causa esta que segue viva como nunca hoje, apesar do famoso mito que paira sobre a cabeça de alguns de que vivemos no país da democracia racial.

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Ps1: para quem quiser entender um pouco mais sobre racismo no Brasil, favor ler esses posts deste blog. Admito que tais textos me municiaram de vários argumentos para o contra-discurso de democracia racial.