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As viagens de Robinson Crusoé e Shackleton

julho 22, 2009

Li outro dia em algum canto da Internet uma afirmação sobre os grandes pioneiros da história. Dizia que boa parte não chega a experimentar a glória do reconhecimento, muito pelo contrário. O destino que costumam encontrar é a morte, seja por febre amarela, malária, flechada, naufrágio e similares. É verdade.

Grandes pioneiros da história rabiscaram os primeiros mapas da América. Morreram de overdose na busca do prazer, foram queimados na fogueira por causa de novas ideias. Sem eles, jamais teríamos acesso a tantas das coisas as quais temos como corriqueiras nos dias de hoje. Para o bem ou para mal, uma fração considerável do progresso e das conquistas da humanidade se deve a iniciativas de alguns loucos e inconseqüentes, porém corajosos indivíduos. Poucos ganham estátuas em homenagem; a maioria é presenteada com o anonimato.

Devorei esta semana dois livros que abordam a trajetória de dois clássicos pioneiros: um deles, ficcional, embora dizem que baseado em uma história verídica; o outro, personagem de uma das aventuras mais épicas já registradas.

O que leva um ser, com plena consciência de autopreservação, a se jogar na vida de marinheiro com uma embarcação do século XVII, em mares não tão bem conhecidos e repletos de piratas, quando poderia, ao contrário, usufruir uma existência segura e confortável em terra firme? Pior, o que leva uma pessoa a se aventurar em uma expedição por mares gelados, traiçoeiros, sem estar equipado sequer de um rádio transmissor, onde vários outros expedicionários já haviam tombado diante do frio e da inanição, com o objetivo de cruzar um lugar totalmente inóspito como a Antártida, apenas pela suposta glória de ter sido o primeiro a fazê-lo?

Crusoé e seu amigo índio Sexta-Feira

Crusoé e seu amigo índio Sexta-Feira

A primeira situação diz respeito ao lendário Robinson Crusoé, personagem do livro de Daniel Defoe, escrito em 1719. Ainda jovem, Crusoé deixa sua casa, a contragosto do pai, que lhe prometera uma vida promissora e cheia de regalias, para lançar-se na aventureira vida de homem do mar. Por duas vezes, depara-se de perto com a tragédia: a primeira, quando se torna náufrago de sua debutante viagem, para ser resgatado mais tarde por mercadores ingleses. A segunda, quando é capturado por piratas, o que faz com que posteriormente seja feito escravo na costa da África, para então empreitar uma fuga em um pequeno barco via alto mar.

Há então um momento de relativa tranqüilidade na vida de Crusoé, quando vive como um próspero plantador de cana-de-açúcar no Brasil. Mas como desgraça pouca é bobagem, o escocês é ainda vitimado por um novo naufrágio. Desse, acaba em uma ilha em algum lugar próximo do Caribe, onde passará 28 anos de sua existência.

Shackleton – Uma lição de coragem conta a história de uma expedição para desbravar a Antártida, passada em 1916, liderada pelo irlandês Ernest Shackleton. O navio em que navega, batizado de Endurance, é aprisionado por blocos de gelo, forçando seus 28 integrantes a abandoná-lo. Tem-se início, então, uma verdadeira epopéia, que dura quase 2 anos, protagonizada em meio às águas tempestuosas e geladas do circulo polar sul.

Naufrágos na Ilha Elephant, no momento do resgate

Naufrágos na Ilha Elephant, no momento do resgate

Da deriva em um banco de gelo para a angústia das nevascas em alto mar a bordo de 3 pequenos barcos. Do sofrido desembarque na deserta Ilha Elephant para a viagem final rumo às Ilhas Geórgia do Sul, quando Shackleton sai com apenas 5 homens em busca de ajuda, munido de uma bússola, um sextante e o sol como instrumentos de localização. No final, todos se safam vivos.

Tanto Robinson Crusoé como Shackleton são daqueles livros que você devora página a pagina. Tão cativantes que me fizeram entrar madrugada adentro, mesmo carregado de sono, pois não aguentava de ansiedade para saber o desfecho. O relato das privações pelas quais passam os personagens, tais como a fome e o frio, fazem mexer com os brios dos leitores mais imaginativos (categoria na qual me encontro).  É como se estivesse vivenciando suas angústias e esperanças.

Uma das coisas que mais me intrigou nisso tudo foi o espírito aventureiro pulsante nos dois personagens. Um espírito que tem suas bases na ambição desenfreada, no comportamento inconsequente, na curiosidade e na miséria pessoal. Indubitavelmente, é ele a grande força motriz que faz de uma pessoa ordinária um pioneiro em potencial.

E nada melhor que o Oceano pra saciar a sede desses espíritos aventureiros. Um terreno capcioso, fértil de armadilhas, e, sem dúvida, para poucos.

O Mulato

julho 10, 2009

Dizem que o que sai do cruzamento de dois indivíduos, sendo um negro e o outro branco, é o famigerado mulato. Tem uma cor escurinha, nem tão preta, nem tão alva, mas o meio termo. É um “seis e meia da tarde”, como falam alguns por aí.

Eu sou um desses seis e meia. Não descendo exatamente de um casal interracial, mas sou resultado de um embolado de genes, vindos de vários cantos do mundo. Todos os meus primos, dos 16 no total, e até meu irmão, podem ser considerados brancos. Pra usar o vocabulário do IBGE, costumo me declarar “pardo”. Ou simplesmente mulato.

Numa sociedade tão racista como a brasileira, não me lembro de haver sofrido alguma discriminação mais gritante por conta de minha cor. Salva a época da infância, quando estudava em escola particular, onde, obviamente, não era nenhum reduto de afrodescendentes, longe disso. Assim, freqüentemente, um ou outro branquinho costumava me chacotear de escurinho. É claro que eu odiava. Mas todos crescemos, e logo as chacotas mudaram de mira.

Credito o fato de ter passado 23 anos da minha vida com pouca ou nenhuma discriminação de cor de pele, mesmo sendo um mulato, à classe social à qual pertenço e ao momento histórico o qual vivencio. Já o mulato Raimundo não teve a mesma sorte. Apesar de bom burguês, viveu no Brasil em pleno século XIX. O país ainda se servia dos escravos negros. Ser abertamente racista não era motivo de pudores ainda.

Raimundo José da Silva é o personagem central de “O Mulato”, romance de Aluísio de Azevedo, datado de 1881, e que terminei de ler ontem à noite. A história transcorre na década de 1870, em São Luís do Maranhão. Permeada por comerciantes portugueses, negros escravizados e beatas mal amadas, a cidade é palco de um romance proibido entre Raimundo e Ana Rosa, sua prima de pele branca. A cor como obstáculo ao final feliz de ambos é o ponto central da trama.

O grande mérito de Aluísio de Azevedo é o caráter denuncista que seu livro traz consigo. Me pergunto se “O Mulato”não deve ter colocado algumas minhocas na cabeça dos puristas de raça mais inveterados da época. Falo isso por conta do alto cuidado no desenho do enredo, a ponto de desmistificar diversos preceitos raciais, ao exaltar tanto as virtudes inquestionáveis de Raimundo, quanto os vícios e malvadezas dos personagens que o perseguiam.

Desconheço a história da luta antirracismo no Brasil, certamente ela já vem desde antes de 1870, mas é indiscutível que o livro de Aluísio de Azevedo é de contribuição ímpar para a causa. Causa esta que segue viva como nunca hoje, apesar do famoso mito que paira sobre a cabeça de alguns de que vivemos no país da democracia racial.

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Ps1: para quem quiser entender um pouco mais sobre racismo no Brasil, favor ler esses posts deste blog. Admito que tais textos me municiaram de vários argumentos para o contra-discurso de democracia racial.