Archive for novembro \26\UTC 2009

Geisy e a sociedade do espetáculo

novembro 26, 2009

Às vezes, nessa nossa existência calejada de amarguras, certas escolhas que fazemos, aparentemente insignificantes em meio a tantas outras do dia-a-dia, tem o poder de transformar vidas. Seja a de desconhecidos, de entes queridos  ou a de nós mesmos. É o copo de pinga a mais que viramos na noite, é o telefonema que não atendemos, é o chute na letra b ao invés da sempre aconselhável letra c. Quer nos esforcemos ou não, jamais teremos o controle total de como as coisas transcorrerão à nossa frente – e, obviamente, não estou falando nenhuma novidade.

Apenas quero chamar atenção para o fato de como uma escolha de guarda-roupa jogou uma pessoa qualquer ao seu quarto de hora de fama . O que é completamente ridículo.

Quando Geisy Vila Nova Arruda lançou mão de seu vestido de 50 mangos pra ir à faculdade, na fatídica noite de 22 de outubro, mal sabia que aquela escolha lhe proporcionaria experiências ainda inéditas. Primeiro  viria a execração pública, depois, a TV e capas de jornais. E se ela tivesse escolhido aquele jeans desbotado do dia anterior?

A internautas minimamente antenados, essa história já morreu de velha, é verdade, tanto que nem darei o luxo de entrar em detalhes. Acontece que os frutos rendidos desse episódio, que mais parece uma anedota – ainda mais depois que o reitor louco expulsou a menina pra desexpulsá-la mais tarde -, não param de ser colhidos.

Depois daquela noite de outubro, quando protagonizou em sua faculdade o papel de “Geni”, Geisy circulou no noticiário nacional na figura de “notícia”. Mais tarde, começou a aparecer em programas de TV como “celebridade”.

E é nesse novo status que Geisy ainda se encontra. Só nesse mês, a estudante de turismo rodou uma série de estúdios de televisão. Primeiro, foi ao Superpop, onde ela e Luciana Gimenez provavelmente filosofaram sobre machismo e intolerância na sociedade brasileira. Já surfando na onda da fama, recebeu convites para desfilar em escolas de samba do Rio e de  São Paulo, privilégio que costuma ser reservado apenas a ex-big brothers. Com a bola cada vez mais cheia, gravou uma participação para o combalido porém relutante Casseta & Planeta. E ainda houve tempo para uma conversa com a eterna Silvia Popovic.

Tudo isso em menos de um mês. Fora as participações das quais não tomei conhecimento.

Mas todo esse fenômeno de ascensão meteórica ao estrelato midiático só foi possível por três grandes razões. A primeira, e mais gritante, nada tem a ver com a mídia, aliás, tem sim, e muito, que é o machismo reinante nos valores de homens e mulheres desse Brasil. Quando achamos que a coisa melhorou um tiquinho, lá aparecem uma manada de bestas-feras a gorjear “Puta! Puta!”  a uma indefesa dama de vermelho, mostrando que o buraco continua beeem fundo.

A segunda grande razão advém da era tecnológica em que nos encontramos, capaz de proporcionar tanto os celulares que captaram a cena de linchamento verbal com a menina, quanto a internet e seus blogs e twitters da vida. Tudo começou com um despretencioso post no Boteco Sujo. De lá, a notícia correu a rede, e foi só uma questão de tempo para estar na boca dos apresentadores de telejornais do horário nobre.

Já a terceira grande razão é um pouco mais complexa e teórica. Existe um livro de um caboclo francês capaz de explicá-la melhor, livro que aliás nunca li. “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, versa, obviamente, sobre a espetacularização em nossa sociedade (há um artigo no site Observatório da Imprensa que traz algumas das ideias exploradas pelo autor, pra quem estiver interessado). Não vou tentar teorizar sobre essa hipótese, pra não cometer nenhuma confusão conceitual, mas só o título da obra é capaz de jogar luz sobre a questão.

Afinal, como explicar essa voracidade da mídia por celebridades instantâneas, que preenche uma demanda de público, se não pela sociedade do espetáculo em que vivemos? Não é a sede pela espetacularização que fez com que a mídia transformasse a via crucis de Geisy em um evento de grandes proporções, ao repetir a esmo as imagens da cena ocorrida em um faculdade na grande São Paulo? É evidente que trata-se de um episódio de relevante interesse público, e que deve, sim, requerer uma cobertura diferenciada. Mas daí a transformar Geisy Vila Nova Arruda em uma semi-heroína nacional vão-se léguas.

Não estivesse com meu TCC interminável já em um estágio tão avançado, juro que pegaria o tema ” Geisy e a sociedade do espetáculo” para escrever sobre. Não consigo me recordar de algo mais simbólico.

O mau presságio de Marcos

novembro 20, 2009

Confesso que senti pena em ver o que está acontecendo com o Palmeiras.

Pena em ver um dos maiores clubes do Brasil, que liderou a maior parte de um torneio que não conquista há 15 anos, praticamente se esfarelar na reta final.

A equipe fazia boa campanha, as expectativas eram boas. Seu recém eleito presidente foi na contramão da maioria dos outros cartolas e tomou medidas inéditas para os dias de hoje. Contratou o técnico mais vencedor da história dos pontos corridos, segurou seus melhores jogadores frente o forte assédio europeu e ainda trouxe uma estrela do ataque de volta da Rússia. Tudo isso com o time ocupando o topo tabela. O título haveria de vir, não poderia dar errado.

Mas acabou que deu. Vágner Love, mesmo com um ou outro golzinho importante, nunca rendeu o que se esperava. Se seu objetivo ao voltar ao Brasil era o de retornar à seleção, é melhor esperar sentado, pra não cansar. Jogos chaves e outros fáceis como os fora de casa contra o Fluminense, Náutico, Santo André, e os no Parque Antártica contra Flamengo, Avaí e Sport foram perdidos ou não ganhos – resultados impensáveis pra quem almeja ser campeão. Lesões se espalharam no elenco feito praga de reza brava, tirando de uma parte importante do campeonato doisjogadores fundamentais, Cleyton Xavier e Pierre.

E teve ainda o Simon, o pior árbitro do Brasil.

Pra completar, Obina e Maurício protagonizaram na última quarta o desfecho perfeito para o enredo de tragédia grega que está sendo o fim de ano palmeirense. Um golpe de direita seguido por um cruzado de esquerda. O duelo de round único entre os dois terminou com um par de cartões vermelhos, uma equipe com 9 jogadores, mais uma derrota fora de casa, e, o mais significativo, terminou com as chances alviverdes no campeonato brasileiro.

Sobrou pro goleiro Marcos, pentacampeão mundial com a seleção, o papel de relações públicas palestrino em momento de crise. Finda a partida no Olímpico, o número 1 ficou por mais cerca de 15 minutos no campo falando – e desabafando – aos repórteres ávidos por declarações com potenciais de manchetes.

Mas Marcos, como já é de costume, mandou bem. Num ramo em que o entrevistado normalmente é uma máquina de reproduzir clichês, suas respostas expressaram a sobriedade requerida de momentos críticos, sem, contudo, serem evasivas.

Foi uma das entrevistas mais sinceras e tocantes que já vi de um jogador de futebol.

Marcos, obviamente, lamentou as expulsões decorrente da briga entre seus companheiros, que selou a derrocada palmeirense naquela noite. Mas isentou aquele episódio como o responsável pela perda do campeonato – apesar de ter sido sua pá de cal -, acusando a vertiginosa queda de desempenho do time nos últimos jogos como a causa principal.

O que mais me tocou, entretanto, em meio àquele discurso resignado, foi o de constatar o quanto aquele goleiro extremamente boa praça estava triste por saber que não será mais campeão brasileiro, mesmo tendo chegado tão, tão perto. Quando o São Paulo perdeu pro Atlético Mineiro em casa, 5 rodadas atrás, até um grande otimista como eu já dava como certo o título palmeirense no início de dezembro. Bastava o Palmeiras não fazer nenhuma grande cagada.

A sorte mudou, o São Paulo hoje é líder, e Marcos, já no crepúsculo de sua carreira profissional, com 36 anos de idade, sabe que 2009 foi provavelmente uma de suas últimas chances, se não a última, de ganhar o título nacional.  E ouvi-lo dizer isso, exatamente isso, em um tom de tristeza só não mais profundo que o das entrevistas de Cuca, me fez transgredir as barreiras da rivalidade futebolística, que faz com que desejemos o mau agouro para o rival até num torneio dente-de-leite. Aquelas palavras todas me fizeram lamentar profundamente por tudo o que Palmeiras está passando.

Talvez seja essa dualidade da glória dos vencedores e da tragédia dos perdedores que torna os esportes de competição uma coisa tão fascinante, como é o caso do futebol. O grande problema, entretanto, quais outras facetas dessa nossa vida mundana, é quando a grande roda viva futebolística escolhe por punir gente que não merece, como esse personagem tão querido e estimado que é o goleiro do Palmeiras.

Mas, fazer o quê, o futebol é assim mesmo.