O Mulato

Dizem que o que sai do cruzamento de dois indivíduos, sendo um negro e o outro branco, é o famigerado mulato. Tem uma cor escurinha, nem tão preta, nem tão alva, mas o meio termo. É um “seis e meia da tarde”, como falam alguns por aí.

Eu sou um desses seis e meia. Não descendo exatamente de um casal interracial, mas sou resultado de um embolado de genes, vindos de vários cantos do mundo. Todos os meus primos, dos 16 no total, e até meu irmão, podem ser considerados brancos. Pra usar o vocabulário do IBGE, costumo me declarar “pardo”. Ou simplesmente mulato.

Numa sociedade tão racista como a brasileira, não me lembro de haver sofrido alguma discriminação mais gritante por conta de minha cor. Salva a época da infância, quando estudava em escola particular, onde, obviamente, não era nenhum reduto de afrodescendentes, longe disso. Assim, freqüentemente, um ou outro branquinho costumava me chacotear de escurinho. É claro que eu odiava. Mas todos crescemos, e logo as chacotas mudaram de mira.

Credito o fato de ter passado 23 anos da minha vida com pouca ou nenhuma discriminação de cor de pele, mesmo sendo um mulato, à classe social à qual pertenço e ao momento histórico o qual vivencio. Já o mulato Raimundo não teve a mesma sorte. Apesar de bom burguês, viveu no Brasil em pleno século XIX. O país ainda se servia dos escravos negros. Ser abertamente racista não era motivo de pudores ainda.

Raimundo José da Silva é o personagem central de “O Mulato”, romance de Aluísio de Azevedo, datado de 1881, e que terminei de ler ontem à noite. A história transcorre na década de 1870, em São Luís do Maranhão. Permeada por comerciantes portugueses, negros escravizados e beatas mal amadas, a cidade é palco de um romance proibido entre Raimundo e Ana Rosa, sua prima de pele branca. A cor como obstáculo ao final feliz de ambos é o ponto central da trama.

O grande mérito de Aluísio de Azevedo é o caráter denuncista que seu livro traz consigo. Me pergunto se “O Mulato”não deve ter colocado algumas minhocas na cabeça dos puristas de raça mais inveterados da época. Falo isso por conta do alto cuidado no desenho do enredo, a ponto de desmistificar diversos preceitos raciais, ao exaltar tanto as virtudes inquestionáveis de Raimundo, quanto os vícios e malvadezas dos personagens que o perseguiam.

Desconheço a história da luta antirracismo no Brasil, certamente ela já vem desde antes de 1870, mas é indiscutível que o livro de Aluísio de Azevedo é de contribuição ímpar para a causa. Causa esta que segue viva como nunca hoje, apesar do famoso mito que paira sobre a cabeça de alguns de que vivemos no país da democracia racial.

*****

Ps1: para quem quiser entender um pouco mais sobre racismo no Brasil, favor ler esses posts deste blog. Admito que tais textos me municiaram de vários argumentos para o contra-discurso de democracia racial.

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2 Respostas to “O Mulato”

  1. Luiz Augusto Rocha Says:

    Meu caro Bulhões, o Brasil é estranho mesmo, há muito tempo. Antes, podia ser pior, porque de uma crueldade que salta aos olhos. E esta situação, que, sabe, não perdure até hoje e talvez não sejamos nós que não enxergamos? Não queremos enxergar?
    A literatura é fantástica e Aluísio de Azevedo também. Apenas li O Cortiço, mas, já é o suficiente para se angustiar muito, ser questionado, ser atingido…

    Abraços, Goiaba.

  2. REVOLUÇÃO QUILOMBOLIVARIANA ! Says:

    REVOLUÇÃO QUILOMBOLIVARIANA !
    Manifesto em solidariedade, liberdade e desenvolvimento dos povos afro-ameríndio latinos, no dia 01 de maio dia do trabalhador foi lançado o manifesto da Revolução Quilombolivariana fruto de inúmeras discussões que questionavam a situação dos negros, índios da América Latina, que apesar de estarmos no 3º milênio em pleno avanço tecnológico, o nosso coletivo se encontra a margem e marginalizados de todos de todos os benefícios da sociedade capitalista euro-americano, que em pese que esse grupo de países a pirâmide do topo da sociedade mundial e que ditam o que e certo e o que é errado, determinando as linhas de comportamento dos povos comandando pelo imperialismo norte-americano, que decide quem é do bem e quem do mal, quem é aliado e quem é inimigo, sendo que essas diretrizes da colonização do 3º Mundo, Ásia, África e em nosso caso América Latina, tendo como exemplo o nosso Brasil, que alias é uma força de expressão, pois quem nos domina é a elite associada a elite mundial, é de conhecimento que no Brasil que hoje nos temos mais de 30 bilionários, sendo que a alguns destes dessas fortunas foram formadas como um passe de mágica em menos de trinta anos, e até casos de em menos de 10 anos, sendo que algumas dessas fortunas vieram do tempo da escravidão, e outras pessoas que fugidas do nazismo que vieram para cá sem nada, e hoje são donos deste país, ocupando posições estratégicas na sociedade civil e pública, tomando para si todos os canais de comunicação uma das mais perversas mediáticas do Mundo. A exclusão dos negros e a usurpação das terras indígenas criou-se mais e 100 milhões de brasileiros sendo estes afro-ameríndio descendentes vivendo num patamar de escravidão, vivendo no desemprego e no subemprego com um dos piores salários mínimos do Mundo, e milhões vivendo abaixo da linha de pobreza, sendo as maiores vitimas da violência social, o sucateamento da saúde publica e o péssimo sistema de ensino, onde milhões de alunos tem dificuldades de uma simples soma ou leitura, dando argumentos demagógicos de sustentação a vários políticos que o problema do Brasil e a educação, sendo que na realidade o problema do Brasil são as péssimas condições de vida das dezenas de milhões dos excluídos e alienados pelo sistema capitalista oligárquico que faz da elite do Brasil tão poderosas quantos as do 1º Mundo. É inadmissível o salário dos professores, dos assistentes de saúde, até mesmo da policia e os trabalhadores de uma forma geral, vemos o surrealismo de dezenas de salários pagos pelos sistemas de televisão Globo, SBT e outros aos seus artistas, jornalistas, apresentadores e diretores e etc.
    Manifesto da Revolução Quilombolivariana vem ocupar os nossos direito e anseios com os movimentos negros afro-ameríndios e simpatizantes para a grande tomada da conscientização que este país e os países irmãos não podem mais viver no inferno, sustentando o paraíso da elite dominante este manifesto Quilombolivariano é a unificação e redenção dos ideais do grande líder Zumbi do Quilombo dos Palmares a 1º Republica feita por negros e índios iguais, sentimento este do grande líder libertador e construí dor Simon Bolívar que em sua luta de liberdade e justiça das Américas se tornou um mártir vivo dentro desses ideais e princípios vamos lutar pelos nossos direitos e resgatar a história do nossos heróis mártires como Che Guevara, o Gigante Oswaldão líder da Guerrilha do Araguaia. São dezenas de histórias que o Imperialismo e Ditadura esconderam.Há mais de 160 anos houve o Massacre de Porongos os lanceiros negros da Farroupilha o que aconteceu com as mulheres da praça de 1º de maio? O que aconteceu com diversos povos indígenas da nossa América Latina, o que aconteceu com tantos homens e mulheres que foram martirizados, por desejarem liberdade e justiça? Existem muitas barreiras uma ocultas e outras declaradamente que nos excluem dos conhecimentos gerais infelizmente o negro brasileiro não conhece a riqueza cultural social de um irmão Colombiano, Uruguaio, Argnetina,Boliviana, Peruana,Venezuelano, Argentino, Porto-Riquenho ou Cubano. Há uma presença física e espiritual em nossa história os mesmos que nos cerceiam de nossos valores são os mesmos que atacam os estadistas Hugo Chávez e Evo Morales Ayma , não admitem que esses lideres de origem nativa e afro-descendente busquem e tomem a autonomia para seus iguais, são esses mesmos que no discriminam e que nos oprime de nossa liberdade de nossas expressões que não seculares, e sim milenares. Neste 1º de maio de diversas capitais e centenas de cidades e milhares de pessoas em sua maioria jovem afro-ameríndio descendente e simpatizante leram o manifesto Revolução Quilombolivariana e bradaram Viva a,Viva Simon Bolívar Viva Zumbi, Viva Che, Viva Martin Luther King,Malcolm X Viva Oswaldão, Viva Mandela, Viva Chávez, Viva Evo Ayma,Rafael Correa, Fernado Lugo,
    Viva a União dos Povos Latinos afro-ameríndios, Viva 1º de maio, Viva osTrabalhadores e Trabalhadoras dos Brasil e de todos os povos irmanados.Movimento Revolucionario Socialista QUILOMBOLIVARIANO
    http://vivachavezviva.blogspot.com/
    quilombonnq@bol.com.br
    Organização Negra Nacional Quilombo
    O.N.N.Q. Brasil fundação 20/11/1970
    por Secretário Geral Antonio Jesus Silva

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