A Revolução será televisionada

Manifestantes Hondurenhos

Foi muito, muito louco acompanhar ao vivo e a cores a tentativa de regresso do presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, ao seu país no último Domingo. E graças à Telesur (aquela do Chávez), que fez uma cobertura jornalística simplesmente espetacular. Havia todos os ingredientes de um filme de ação: tiros, avião, exército, conspiração.  Só faltou o mocinho derrotar o bandido no final.

Para dar uma situada aos mais desatentos: no Domingo de 29 de junho, o exército hondurenho entrou na casa de Zelaya sem bater na porta, o agarrou de pijama, colocou-o num avião, e o despachou para Costa Rica. Logo assumiu um pretenso governo interino, capitaneado por um cabra de nome Micheletti.  Um clássico golpe de estado, forjado em cima de algumas desculpas de fachada, as quais não me darei o trabalho de explicá-las agora (deem uma pesquisada se se interessarem).

Pois bem, durante a semana toda, Zelaya avisou aos 4 cantos que iria voltar à Honduras porque ainda se considerava  o “presidente legal do país”. A reação da comunidade internacional foi adequada, ninguém reconheceu o governo golpista, pulularam condenações dos países americanos, e até se ensaiou uma escolta de presidentes para Zelaya em sua volta; rezou a lenda nesses dias que Rafael Correa e Cristina Kirchner também iriam. “Bom, derrubar o avião do Zelaya é que o exército agora não vai fazer”, me entusiasmei. O circo parecia que ia de fato pegar fogo.

A data inicial da volta era quinta-feira, dia 2 de Julho! Qual um espectador ansioso, comecei a contar os dias para o acontecimento. Mas aí começou a enrolação diplomática, uma reuniãozinha ali na Nicarágua, outra ali em Washington, e a viagem parecia que não ia sair. Depois, quinta passou, nada de volta, mas Zelaya seguia categórico na sua intenção. Mais um dia se passou, era sábado, e veio a notícia de que Correa e Kirchner não iriam mais. “Nunca prometa algo que não possa cumprir”, ensinei ao meu irmão, em uma conversa sobre a promessa do presidente deposto.

Porém  no sábado à noite a manchete da vez era “Zelaya diz que volta neste domingo de qualquer jeito”. Esmoreceu um pouco minhas dúvidas.

No tão aguardado dia, grudei no Twitter. Via Idelber Avelar, passei a seguir uns hondurenhos sintonizados e também consegui o link pra transmissão da Telesur. A emissora já trazia as imagens de milhares de pessoas cercando o aeroporto Tocontín, em Tegucigalpa, capital do país. Como não poderia deixar de ser, lá estava o exército pronto para reprimir. Fato que não tardou muito:  logo, começaram as bombas de gás lacrimogênio e tiros de fuzis na multidão pró-Zelaya. Um saldo de ao menos dois mortos entre os manifestantes.

Enquanto isso, a Telesur transmitia vídeos de celulares feitos por anônimos que estavam ali no olho do furacão. Também tinham um link ao vivo com uma repórter localizada bem aos fundos do aeroporto. Posição perfeita. E aí que Zelaya entrou ao vivo, diretamente do avião, confirmando que em pouco tempo chegaria à Tegucigalpa. E o circo já pegava fogo. Haja coração!

A camêra do link ao vivo a todo momento focava o horizonte, em busca de algum sinal do avião do presiente. Por diversas vezes, nada no céu, com exceção de um helicóptero do exército. Eis que então surge a aeronave com Zelaya. Uuuuonnn! No chão, caminhões do exército obstavam a pista. O piloto, venezuelano, entra ao vivo na Telesur:

“Estou pedindo permissão para pousar, mas não concedem”. Zelaya também vai ao ar, diz que deu ordens para liberar a pista, mas recusadas. Depois de duas tentativas, Zelaya desiste. Ruma para a Nicarágua.

Ainda sobrou tempo para Chávez também ir ao ar na Telesur, descer a lenha nos golpistas. Pelo Twitter, soube que a mídia hondurenha boicotou completamente os acontecimentos. Primeiro, veiculando filmes e desenhos. Depois, em cadeia nacional, passavam mensagens já transmitidas dos golpistas.

Quanto a mim, me encontrava totalmente eufórico com toda aquela sequências de acontecimentos. E deslumbrado, pensando acerca de quão rápido viajam as informações nos dias de hoje, a ponto de eu, sentado em meu quarto, Rio Claro, interior paulista, estar me sentindo como se estivesse em Tegucigalpa, vibrando em alguns momentos, me lamentando em vários outros.

Esse caso de Honduras, juntamente com os protestos em Mianmar e no Irã, países de cunho bastante autoritário, célebres censores da livre circulação de notícias quando estas não lhe conveem, serviu para consagrar ainda mais as camêras de celulares, o Twitter e You Tube como instrumentos jornalísticos únicos.  Santa internet.

* * * * *

ps1: uma menção honrosa ao post inaugural deste blog. Que seja eterno enquanto dure.

Anúncios

Tags: ,

3 Respostas to “A Revolução será televisionada”

  1. Luiz Augusto Rocha Says:

    A descontar a euforia, a internet tem se constituído um espaço fértil para ampliação da comunicação midiática.
    Quando é que sairemos do estágio de poder assistir aos eventos para entrarmos na participação ativa?

  2. Vanessa Says:

    Marquiiiiiiito… uahauhuhuaha

  3. gabriel ruiz Says:

    Cara, seu texto está decolando. Valeu o salve ao post de nascimento. Vamos trocar essa ideia, sobre a Telesur e os hondureiros (?) que tuítam, me pareceu mui legal.

    Parabéns pela iniciativa de criar o blog. Porém, o desafio grande de quem cria um espaço, é não deixá-lo “largado”, ou sucumbir quando o tempo vem.

    Acho também que vc poderia fazer um post auto-explicativo das imagens eleitas para a imagem do topo. E, no decorrer, instalar uma ou outra ferramenta que ajudam a tornar um blog bacana.

    Ah, agradeço o link ali do lado e vida longa ao Disparada, ele é muito bem vindo!! 😀
    abraço !

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: